As guerras liberais e o Algarve


O Algarve, como noutras ocasiões de grande significado histórico, participou activamente nos conflitos político-militares que rechearam o século XIX.
Natuaralmente que as assimetrias ditadas pela morfologia da região, distinguindo o longo litoral da abrupta serra, não deixaram de marcar a vida e a mentalidade das respectivas populações.
Desta maneira, o litoral algarvio proporcionou, desde logo, o contacto com o exterior, desenvolvendo-se as relações económicas com outros países, sobretudo de África, Mediterrâneo e Europa central.
Atraídos pela excelente posição geográfica do Algarve e pelas oportunidades de negócio que a sua produção frutífera oferecia, particularmente o figo e a laranja, estrangeiros e pessoas de outras regiões de Portugal aqui se vieram instalar.
De entre os mais importantes, referirei John Barr Crispin, Consul de Inglaterra, edificador em Faro da casa onde nasci, que serviu, durante alguns anos, de Arquivo Distrital de Faro; e Manuel José Gomes da Costa, meu 5º Avô, nascido em Santo Tirso de Prazins, concelho de Guimarães, que para Faro veio residir, nesta cidade constituindo uma das mais sólidas casas de comércio da província, sobretudo orientada para a exportação de fruta.
Pelo seu casamento com Maria Francisca da Paz de Bivar Albuquerque de Mendoça Weinholtz, deu origem a uma famíla com profundas raizes no Algarve.
Não é assim de admirar que a actividade económica e os contactos com outras mentalidades e culturas viessem estimular o acesso ao ensino superior e à adopção de novos paradigmas políticos e sociais, permeáveis ao ideário liberal.
Em contraposição, o interior algarvio, pelo isolamento geográfico, estaria mais afecto ao que se convencionou chamar de “tradicionalismo apostólico”, consubstanciado pelo caciquismo dos grandes proprietários rurais e pelo controlo espiritual exercido pelo clero local.
Recordemos, também, que foi a posição geo-estratégica do litoral algarvio que facilitou a entrada dos exércitos libertadores do Duque da Terceira, em 24.6.1833, em Cacela, e do Visconde de Sá da Bandeira, em 31.3.1847, em Lagos.
Perdoe-se-me, finalmente a imodestia de acrescentar, ainda, algumas notas, quase pessoais, que mais não pretendem ser do que o testemunho da participação de uma das famílias algarvias que, na época conturbada do liberalismo e das guerras civis, teve alguma notoriedade, que muito honra os seus descendentes, constituindo parte integrante da memória e capital simbólico familiares.

O palácio Bivar, em Faro, berço e residência de várias gerações, até hoje, alojou, por cedência voluntária, o Estado Maior do Exército Libertador, quando das invasões francesas, contribuindo os seus proprietários com avultada quantia de dinheiro para custear as despesas militares.
No mesmo palácio, no dia 1 de Agosto de 1826, se realizou uma sessão solene, seguida de baile, comemorativa da outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV.
Do casamento do já referido Manuel José Gomes da Costa, Coronel de Milícias e Cavaleiro da Ordem de Cristo, importante comerciante em Faro, com Maria da Paz de Bivar Weinholtz, filha e neta de oficiais generais do Sleswig-Holstein, então integrado na Dinamarca, que reorganizaram a artilharia portuguesa e foram os inventores da peça considerada precursora das modernas metralhadoras, nasceram, entre outros:
. Luis Garcia de Bivar Gomes da Costa, já anteriormente mencionado, a propósito da revolta de Tavira, em 1826, onde se distinguiu.
Durante as invasões francesas, alistou-se, apenas com 14 anos, fazendo a campanha da libertação sem receber qualquer soldo.
Pelas suas convicções liberais, foram-lhe confiscados os bens e forçado a emigrar;
. Frederico Jacob de Bivar Gomes da Costa, preso em Lisboa, em 17.11.1830, por José Veríssimo e encarcerado, por largos anos, na Torre de São Julião da Barra.
. Maria Feliciana de Bivar Gomes da Costa, casou   com seu primo, José Lino de Almeida Coelho de Bivar e foram os pais do Visconde de Bivar, Francisco de Almeida Coelho de Bivar, ao qual se devem importantes obras públicas no Algarve, entre as quais, a ponte sobre o rio Arade, a estrada litoral do Algarve, o caminho de ferro, a linha telagráfica de Faro a Sagres, etc.
Com José Lino de Almeida Coelho de Bivar ocorreu um episódio que não resisto em relatar, pelo que ilustra de coerência e dignidade, não obstante as atitudes extremas provocadas pelas lutas políticas, vividas em clima de paixão e violência.
José Lino foi assassinado na casa da sua quinta, junto ao rio Alvor, pela guerrilha miguelista do “Trovoadas”, um marinheiro chamado José de Oliveira, cuja alcunha lhe vinha do nome do navio em que prestara serviço.
Houve quem acusasse o próprio Remexido desse crime, mas o certo é que ele, públicamente, o reprovou, tendo mandado fuzilar o assassino, no mesmo local onde havia cometido o crime.
Além disso, o Remexido apresentou, pessoalmente, desculpas à família Bivar, seus rivais políticos, mandando colocar homens seus às portas dos palácios Bivar, em Faro e em Portimão, para evitar eventuais incidentes.
. Manuel José de Bivar Gomes da Costa,  enquanto Capitão de Milícias, em Tavira, foi preso no pronunciamento de Abril de 1828 e nessa situação se manteve até Março de 1831, sendo-lhe confiscados os bens.
Pelas suas acções, foi condecorado com o grau de Cavaleiro das Ordens da Torre e Espada e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
De 31.3.1837 a 29.2.1840, foi Administrador Geral do Algarve.
Foram seus filhos:
. Luis Frederico de Bivar Gomes da Costa, o Conselheiro Luis Bivar, como ficou conhecido.
Tendo iniciado a sua carreira de magistrado em Tavira, como Delegado do Procurador Régio, em 1853, foi Presidente da Relação de Lisboa, Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, Deputado, Presidente da Câmara dos Pares do Reino e da Câmara dos Deputados, em várias legislaturas, Par do Reino Vitalício, Conselheiro de estado efectivo, Grã-Cruz das Ordens da Torre e Espada, de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, membro proeminente do partido Regenerador e uma das figuras mais respeitadas na sua época.
. Jerónimo Augusto de Bivar Gomes da Costa, meu trisavô, licenciado em Medicina, sócio correspondente do Instituto de Coimbra, Chefe do partido Regenerador do Algarve, Governador Civil do Distrito de Faro de 31.3.1881 a 18.2.1886
Ambos estes irmãos eram genros do Conselheiro Dr. Mateus António Pereira da Silva, natural de Vila Real de Santo António, que  tendo iniciado a sua carreira de magistrado em Tavira e Lagos, passou aos Açores, onde foi Corregedor e Procurador e o 1º Recebedor Geral do país.
Foi Venerável da Maçonaria de 1833 a 1835, Presidente da Câmara Municipal de Tavira em 1838 e Deputado às Cortes em 1846.

O nosso percurso histórico revela um Portugal de contrastes sucessivos, entre o real e o mítico, entre o atraso quase alarmante e os lampejos inovadores de uma exuberante criação cultural  universalizante.
Se bem que esta contradição possa reflectir a peculiariedade e a força anímica do Português, não sendo um sinal de fragilidade, mas a expressão de uma capacidade de imaginação, constantemente adaptável às circunstâncias, por outro lado, sempre nos faltou a prospectiva, o projecto, a reconversão da experiência passada em rampa para o futuro.
A História faz-se de altos e baixos, de avanços e de recuos, de vitórias e de derrotas, de rejeições e de cedências, de lágrimas de tristeza e de alegria, mas o fio condutor dos vários momentos históricos é a esperança, o sonho.
Como já tive ocasião de dizer, noutras circunstâncias, entre nós, esse sonho decorre da nossa criatividade mitogénica, que segundo Gilbert Durand, “modelou a alma de um povo, mas também tutelou a sua História”, acrescentando que “esses mitos que se mantêm vivos na tradição popular ou na obra dos poetas, pensadores e artistas de hoje fazem de Portugal um lugar  onde o pensamento europeu pode reencontrar as suas fontes”.
Embora aparentemente história e utopia sejam dois conceitos dialécticos, contrastantes e antinómicos, no fundo, entrelaçam-se e completam-se, formando um “continuum”.
A História alimenta-se de utopia, nas ideias, na ideologia, na projecção reformista ou revolucionária.
Por outro lado, a utopia encontra as suas raizes na História e desenvolve-se através do tempo e dos espaços históricos.
O pensamento utópico é um pensamento polisémico, que atravessa a filosofia, a politologia e muitas outras disciplinas, traduzindo a aspiração a um mundo melho, a uma sociedade mais feliz.
Neste sentido, a utopia confunde-se com a história da esperança, com a história da liberdade, no seu imparável movimento para o futuro.
Mas é também um olhar para o passado, reflectindo os dramas pessoais, a história das ideias, das instituições, da sociedade, das artes.
Na verdade, quando se elaboram ideias que transcendem a ordem existente, cai-se no campo da ideologia e desta passa-se, inevitávelmente, à utopia.
Esta é assim uma metáfora da História. Porém, uma força positiva, pois na vida é dialéctica, na arte e na política é oposição, é renovação, inquietação, representando a resistência ao encrostamento político, escolástico, profissional, humano.
Traduz, afinal, a capacidade de sonhar e de realizar o sonho.

Muito obrigado

Luís Bivar de Azevedo

(Excertos da palestra proferida na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, em Tavira, em 11/1/2011, no âmbito do II Ciclo de conferências sobre "As Guerras Liberais", promovidas pelo Regimento de Infantaria nº I daquela cidade).

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