Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades...”
Assisti ontem, dia 8 de Fevereiro de 2011, na SIC Notícias, a um degradante espectáculo: a entrevista ao Coronel Mário António Baptista Tomé, conduzida pelo inimitável Mário Crespo, no âmbito da evocação dos 50 anos da “Guerra Colonial”.
Com efeito, o entrevistador, no seu estilo característico, foi extraindo da arrogância e dos mal disfarçados complexos existenciais de Tomé todo um rol de meias-verdades, de inverdades e de banalidades, temperadas, como é habitual nestes casos, de citações e tiradas de autores de “referência”.
Tudo isto não teria grande importância, tendo em atenção o peso cultural e político do entrevistado, não fossem as barbaridades e suspeições produzidas na peça ser provocadoramente ofensivas para a esmagadora maioria dos que foram mobilizados para os 3 teatros de operações do antigo Ultramar português e, em especial, para a memória dos que aí perderam a vida.
Durante 13 anos, milhares e milhares de jovens passaram por África, deficientemente preparados e equipados, arriscando o seu futuro, mas muitos deles convencidos, quanto mais não fosse pelo ardor e generosidade da sua juventude, de que o seu sacrifício não poderia ser inutil, num mundo em acelerada transformação.
Muitos outros pensavam que, face à Constituição e às leis, simplesmente não podiam eximir-se ao cumprimento do dever militar, pelo que, com mais ou menos pragmatismo, foram-se adaptando à situação imposta.
Muito poucos foram os que, por razões pessoais ou políticas, se escusaram ao compromisso militar, entrando na clandestinidade ou fugindo para o estrangeiro.
A guerra, resultado de uma decisão política, nunca é justa, tem sempre efeitos devastadores em pessoas e bens, proporcionando, por vezes, colateralmente, situações incontroláveis.
Porém, a guerra, como qualquer situação-limite,  faz emergir, também, qualidades e circunstâncias que, marcando para sempre a vida dos combatentes, se refectem na sua maneira de agir e entender o mundo.
Os efeitos negativos e positivos de uma guerra como a do Ultramar ocorreram e ocorrem em muitos outros teatros de operações, pelo mundo fora, e a História se encarregará de lhes dar o relevo que merecem.
Há já alguns anos, no decurso de uma reunião de trabalho, em Lisboa, conheci um alto funcionário da diplomacia de Angola, da minha idade, ex-combatente do MPLA, que, ao saber que eu fora alferes miliciano de cavalaria em Angola, na mesma época que ele, manifestou grande interesse em trocar impressões sobre a guerra e, em especial, sobre as zonas por onde eu tinha passado. Depois de uma animada conversa, acabou por concluir, com visível satisfação e um forte aperto de mão, que, provávelmente, teriamos estado, alguma vez, no mesmo sítio e à mesma hora, embora em lados opostos. Este gesto, na sua simplicidade, é uma verdadeira lição de dignidade e de respeito, que poderia bem servir de exemplo paradigmático para todos os que, hoje, se envergonham de ter servido o seu país em terras de África.
Conheci vagamente, em 1963, o então Alferes Tomé, que, com o seu ar germânico e empertigado, de estilo opinativo, prenunciava já uma ambiciosa carreira militar.
O seu percurso militar e político viria a ser mais conhecido a partir de 25 de Novembro de 1975,  mas, perante a entrevista de ontem, não resisti em recordar e divulgar o teor do louvor que deu origem à Cruz de Guerra de 2ª Classe, atribuida a Tomé pela Ordem do Exército nº 22-2ª serie, de 15. 11. 1968. 

 Luís Azevedo

1 comentário:

A. João Soares disse...

A guerra é realmente uma «situação limite» que bem pode ser evitada se houver bom senso e vontade de dialogar para negociar pacificamente a solução dos atritos que possam surgir.
Há um exemplo recente de grande interesse sobre este tema: o «conflito entre as duas Coreias. Os EUA avançaram com porta-aviões para exercícios militares o que constitui uma provocação, uma manobra que pretende ser de dissuasão mas que poderia ter acabado numa catástrofe para os dois Estados vizinhos. Por outro lado a China enviou embaixadas de diálogo aos dois «contendores» e parece ter chegado ao desejado apaziguamento.

Como o mundo seria um paraíso se deixasse de haver guerras em que ambas as partes têm mais prejuízo do que ganhos.

Abraço
João
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